domingo, 13 de junho de 2010

PROBLEMAS DA BÍBLIA HEBRAICA EM PORTUGUÊS

Alterações textuais que impedem a percepção de Yeshua como o Messias
Por Igor Miguel

Existem excelentes versões da Bíblia produzidas no mundo judaico, em específico, versões da Torá. Pela primeira vez foi publicada em português, uma versão de todo o Tanách (o chamado Antigo Testamento para os cristãos) que se afirma traduzida diretamente do hebraico.

Sabe-se que toda tradução é naturalmente interpretativa e hermenêutica. Ou seja, está sempre submetida aos conceitos e ponto de vista do tradutor. Há os que sustentam uma “imparcialidade” ou “neutralidade” em traduções. Porém, cientificamente, sabe-se que a “neutralidade” é um mito. O tradutor pode tender à “imparcialidade”, porém sempre há algo de sua individualidade e subjetividade que estarão presentes em sua produção textual.

Nesta mesma linha, há o mito da “tradução fiel”, que é tratar a tradução como uma reprodução literal e precisa da fonte primária. Em outras palavras, uma tradução da Bíblia em português (ou qualquer outra língua) que se diga 100% fiel às fontes originais. O ideal de uma “tradução fiel” é uma impossibilidade técnica, não há como fazer uma tradução que reproduza fielmente, em todos os aspectos, o que o autor quis dizer. Pois é óbvio, que o sentido de um texto só pode ser entendido em todas suas dimensões de significado, quando inserido em sua língua e contexto originais. Ao passar este significado ou sentido para uma outra língua, há perdas, limitações naturais que ocorrem pelo simples fato de ser uma tradução.

Existem subjetividades de ordem cultural que precisam ser levadas em conta, há estruturas que são peculiares de uma língua específica. A exemplo de hebraísmos, rimas, jogos de palavras, expressões e até mesmo codificações que só fazem sentido na língua original, por isto, simplesmente é impossível reproduzi-las em sua totalidade em uma tradução.

Como já fora introduzido, a tradução também corre o risco de ser ideológica, ou seja, de carregar consigo a tendência ou pressupostos teológicos ou filosóficos, do tradutor. Por isto, o leitor deve ter clareza – ao ler uma Bíblia traduzida – que ele não está lendo a Palavra de D’us de uma forma direta, mas transmitida por uma tradução suscetível à interferências do tradutor. A Palavra de D’us, nos foi transmitida em língua oriental, no caso das Escrituras Judaicas, a língua hebraica (com alguns trechos em aramaico). O leitor deve ter extremo cuidado para não cair em uma excessiva sacramentalização da tradução, ou seja, uma supervalorização canônica da tradução, pois ela é uma “reprodução” sujeita à ruídos e interferências. Sendo assim, a Bíblia traduzida seja por quem for, sempre será uma versão vulnerável a pontos de vistas e imperfeições. Somente os originais podem ser tratados como textos realmente canônicos e realmente inspirados. Estes sim são a “fonte primária”.
Por isto, não existem traduções perfeitas, ou uma que possa ser considerada a melhor. Existem boas traduções da Bíblia publicadas por editoras protestantes, católicas e judaicas (no caso por exemplo do Tanach), porém, estão todas suscetíveis às críticas e às mesmas vulnerabilidades textuais que já foram mencionadas.

Deve-se deixar claro por outro lado, que nenhuma tradução é desprezível, a maioria das produções sérias, como as versões clássicas (ARA, ARC, KJV, etc), são trabalhos de profunda importância intelectual e espiritual. As traduções introduziram as pessoas aos originais, lhes permitiu terem seus primeiros contatos com as Escrituras Sagradas em vernáculo conhecido. Isto é de grande valor! As limitações de uma tradução da Bíblia, não a colocam em categoria desprezível. Toda tradução tem seu valor, o que não anula obviamente, suas limitações.

Já vem sendo demonstrado através de vários artigos e palestras, os diversos problemas de tradução em versões cristãs da Bíblia, principalmente em textos que possuem vínculos teológicos à respeito da Lei, dos judeus, de Israel, etc. Há trechos em específico do chamado Novo Testamento, que foram distorcidos em uma tentativa de ofuscar a teologia do relacionamento de D’us para com Israel, a Torá e seu povo. Há hoje um esforço teológico, para desmascarar esta tendência histórica de versões cristãs da Bíblia em “desjudaizar” as Escrituras.
Porém, nunca foi apresentada uma crítica (no sentido técnico) às tendências das versões judaicas das Escrituras, levando em conta em específico a recente e única edição judaica do Tanach em Português.

Não há intenção aqui, obviamente, de hostilizar a versão, seus editores ou tradutores. O que se propõe é apenas uma crítica de ordem teológica e técnica a textos que sofreram algum tipo de distorção, em favor de posicionamentos dogmáticos impostos por uma tradição histórico-religiosa milenar. Tradição respeitável, mas que não é hermética ou fechada, antes aberta ao diálogo e à reflexão livre. Mesmo que isto coloque em jogo alguns paradigmas. Se o que se deseja é o bem da verdade, que assim seja!

WHAT HAPPENED WITH JESUS’ HAFTARAH?
(O QUE ACONTECEU COM A HAFATARÁ DE JESUS?)
Foi recentemente publicado um artigo pelo Jornal israelense Haaretz, que trata de um assunto polêmico, mas que precisa ser debatido. Muitos estudiosos e pesquisadores das Escrituras, em específico aqueles que se especializaram sobre o Novo Testamento, vinham questionando algo interessante.

Alguns sabem que há uma tradição milenar no judaísmo, que é a leitura de porções dos profetas após a leitura pública da Torá (Pentateuco). Estes textos previamente selecionados dos escritos proféticos são chamados de Haftará. Uma das fontes mais antigas, que descreve ocasionalmente esta tradição judaica, está maravilhosamente preservada em um texto do chamado Novo Testamento, em específico em Lucas 4:16-20 que diz:
“Indo [Yeshua/Jesus] para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado [Shabat], na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então lhe deram o rolo do profeta Isaías, e abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres [...] tendo fechado o rolo, devolveu-o ao assistente [chazan] e sentou-se ...” .

Este texto fascinante, demonstra com clareza que Yeshua (Jesus) fez a leitura pública do rolo do profeta Isaías na sinagoga em um Shabat. O que fazia Ele na ocasião? Nada mais, nada menos, que a antiga e boa tradição judaica da leitura da Haftará, já mencionada.

Porém, o problema que alguns estudiosos observaram ao ler esta narrativa, foi: Que trecho é este que Yeshua leu? Ora o texto lido por Ele advém em específico do capítulo 61:1 e 2 do livro do profeta Isaías. Daí surgiu outra questão: Se a leitura das porções dos profetas (a Haftará) é selecionada antecipadamente, em uma tabela oficial. Quando esta leitura é ou era feita na sinagoga? Esta dúvida permaneceu durante muito tempo sem uma resposta satisfatória.

Sabe-se que a leitura oficial dos profetas é determinada por uma escala elaborada pela tradição dos rabinos. Assim vem sendo orientada por centenas de anos. Mas, o que se percebe no caso de Yeshua, é que o texto lido por ele, não se encontra na escala de leituras do judaísmo atual. Por quê? Há algum erro no Novo Testamento? Há os que sustentam este argumento, porém, esta não é a resposta adequada. Teria então, a lista de leitura das Haftarôt (plural de Hafatará) sofrido alguma alteração, por parte de alguns rabinos ou decretos rabínicos?

Foi publicado pelo jornal israelense já mencionado, um artigo intitulado em inglês como: “What happened to Jesus’ Haftarah?” de autoria de Hananel Mack1, cuja informação é no mínimo intrigante. Produto sem dúvida de uma mente crítica e atenta a possíveis falhas na bela estrutura do judaísmo, imprecisões que precisam ser criticadas e discutidas, ao invés de serem friamente aceitas.

O que o autor do artigo propõe, é que existem raras referências na tradição judaica, que podem dar alguma pista de quando exatamente surgiu a prática da leitura dos profetas nas sinagogas. Há obviamente os que argumentam que esta nasceu no período dos Macabeus (166-63 A.E.C.), porém o autor deixará claro que estas evidências históricas ainda são questionáveis. O curioso é que ele recorrerá a fontes, inusitadas para o judaísmo, que provam a existência desta prática já na época do II Templo. Incrivelmente um dos documentos, demonstrado pelo autor, que descreve a leitura da Haftará no I século E.C., está no chamado Novo Testamento. Um trecho é o que narra a leitura pública do profeta Isaías por Yeshua (Jesus) na sinagoga de Nazaré e outro é o que está preservado no livro de Atos dos Apóstolos capítulo 13. Estas são claras evidências de que tal prática era comum na época do II Templo, tanto em Israel como na Galút (diáspora).
O quê autor questiona é que, como já fora introduzido, não há menção deste trecho do profeta Isaías (lido por Yeshua) na lista oficial de leituras da Haftará do judaísmo recente. Logo, vem a pergunta: O que aconteceu então, com a Haftará que Jesus leu na sinagoga de Nazaré?

EXCLUSÃO DELIBERADA DE TEXTOS MESSIÂNICOS
Para o autor israelense houve uma exclusão deliberada por parte de líderes religiosos judeus da diáspora, principalmente em redutos judeus onde havia uma cultura predominantemente cristã. Para ele houve uma iniciativa da elite religiosa judaica em REMOVER os textos em que YESHUA poderia ser identificado ou associado ao Messias. A curiosidade é que os capítulos 60, o final do 61, o capítulo 62 e 63 do profeta Isaías, estão na lista de leitura da Haftará. Mas, estranhamente, o início do capítulo 61, que fora lido por Yeshua em Nazaré, não está na lista. Segundo o autor, na verdade o texto lido por Yeshua fora excluído arbitrariamente.
Esta inferência apresentada por Mack não foi produzida sem fundamentos. Baseia-se na antiga lista de leitura de Haftarôt encontrada na Guenizá2 da sinagoga do Cairo. De fato, o referido texto (Isaías 61:1 e seg.) era lido na Haftará desta antiga comunidade do Norte da África. Por quê? Porque as comunidades judaicas desta região, não tinham contato com os debates sobre Yeshua (Jesus) e o judaísmo, afinal eram locais onde havia predominância religiosa islâmica. Não havia conflito entre a cultura local e a estrutura litúrgico-teológica do judaísmo nestes locais. Não havia nada, a priori, no Islã que poderia por em risco a fé judaica.

Em suma, o que o autor tenta demonstrar é que houve um esforço no judaísmo ocidental (que logo se espalhou para o restante do mundo judaico) de excluir textos que eram tradicionalmente usados por cristãos como textos prova a respeito de uma possível “messianidade” de Yeshua. Estes eram os chamados textos messiânicos.
Todos os textos abaixo foram excluídos deliberadamente da tradição judaica, por motivos óbvios. O interessante é que a leitura atual da Haftará engloba ou versos ou capítulos, antes ou depois destes trechos, mostrando claramente a resistência do judaísmo em inserir em sua liturgia textos messiânicos.

ALGUNS TEXTOS EXCLUÍDOS PELA TRADIÇÃO JUDAICA DA LEITURA DAS HAFTARÔT:
ISAÍAS 7:14 - “Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel”.
ISAÍAS 52:13 e 14 - “Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime. Como pasmaram muitos à vista dele (pois o seu aspecto estava mui desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua aparência, mais do que a dos outros filhos dos homens)”.

ISAÍAS 53:1-6 - “Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos”.
ISAÍAS 42:1-7: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios. Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o direito. Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina. Assim diz Deus, o SENHOR, que criou os céus e os estendeu, formou a terra e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está e o espírito aos que andam nela. Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo e luz para os gentios; para abrires os olhos aos cegos, para tirares da prisão o cativo e do cárcere, os que jazem em trevas”.

JEREMIAS 31:31-33: “Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”. OSÉIAS 11:1 - “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho”. MIQUÉIAS 5:2 – “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”.
ZACARIAS 9:9 – “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”.

Parece meio óbvio, que estes textos tenham sido excluídos da leitura pública da tradição judaica, fica evidenciado que estas profecias têm profundas implicações de ordem messianológica, em favor de Yeshua como única pessoa histórica que se tem relato textual que cumpriu, ou pelo menos teve algum vínculo com estas profecias. O que se vê é um esforço deliberado contra a figura de Yeshua (Jesus) como Messias.

ADULTERAÇÃO DE TEXTOS MESSIÂNICOS
O esforço do judaísmo tardio em descaracterizar, ou pelo menos, em prevenir a comunidade de uma “livre associação” entre textos messiânicos com a figura de Yeshua continua ainda de forma mais intensa, quando se trata de uma tradução recente, do Tanách3 (da Bíblia Hebraica – também conhecido como Antigo Testamento pelos cristãos). Infelizmente, muitos cristãos ávidos e leigos, ainda inexperientes na relação cristianismo x judaísmo, se envolvem em elogios até públicos, sem ao mesmo refletirem criticamente sobre estes textos.

Como de praxe nesta versão, em nada diferente de outras traduções da “Bíblia Hebraica” existentes no mundo, há inferências entre parênteses que são usadas, segundo os editores, para a “... inserção criteriosa de certas palavras (normalmente entre parênteses) quando extremamente necessárias à compreensão do texto, ou adotou-se determinada tradução não literal a fim de possibilitar sua leitura à dos ensinamentos e orientações técnicas dos Sábios do Talmud e dos consagrados exegetas bíblicos judeus dos últimos 2 mil anos”4. Neste ponto reside a principal crítica deste artigo. Ao submeterem uma tradução das Escrituras Hebraicas para o português, levaram em conta uma tradição paralela de tradução das Escrituras, neste caso as orientações de rabinos da antiguidade bem como outros intérpretes judeus. Ou seja, o que se tem não é apenas uma tradução, é uma “interpretação”. Felizmente, este ponto foi deixado claro.

O problema reside no fato de que, como foi visto na questão das Haftarôt, há na estrutura do judaísmo posterior ao Segundo Templo, uma tendência a “ajustes” de ordem teológica na própria religião, de forma não haver lacunas para uma possível compreensão ou associação de Yeshua (Jesus) como uma figura messiânica. Para prevenir possíveis “distorções”, apela-se para todo tipo de “adaptação” textual, para que se alcance este objetivo.

Pensar-se-á em algumas passagens bíblicas cuja tradução é conduzida de tal forma que levam o leitor à conclusões previamente elaboradas, obviamente com fins profiláticos, como uma forma de prevenir outros judeus de perceberem a figura messiânica de Yeshua nestes possíveis textos.
Citar-se-ão alguns textos na versão portuguesa da Bíblia Hebraica e será feita em seguida uma análise exegética destes textos, percebendo possíveis distorções ou interpolações.

TEXTO 1: ISAÍAS 9:6-7 (v.5-6 no texto hebraico):
“Pois nasceu entre nós uma criança, um filho (de Achaz, da dinastia de David) nos foi dado. E sobre seus ombros estará a autoridade; por isso o Maravilhoso Conselheiro, o D’us Todo-Poderoso e Pai eterno, alcunhou-o (a Hizikiáhu [Ezequias], o filho de Ahaz) de Sar-Shalom (‘Príncipe da Paz’)...”
Como já foi dito, as inferências entre parênteses são em alguns casos elucidativas, mas em outros, são ampliações do texto vinculando-os a uma tradição interpretativa.
Neste texto a “criança”, a priori não identificada diretamente no texto, é associada ao filho do rei Acaz, neste caso o Rei Ezequias. Observe, que as observações entre parênteses não constam no texto hebraico original, são interpretações de ordem especulativa, não havendo clareza no texto sobre tal possibilidade. Repentinamente, a “criança” ou o “menino”, ‘cujo poder está sobre seus ombros’, é nomeado de “Príncipe da Paz” por um terceiro sujeito: “O D’us Todo Poderoso e Pai Eterno”. Estranho pois no texto hebraico esta estrutura final está da seguinte forma:

Vaikrá [e chamar-se-á] sh’mô [seu nome] pélê [maravilhoso] yoêts [conselheiro] Êl-Gibor [D’us Forte] Aviád [Pai Eterno] Sar-Shalom [Príncipe da Paz].
Como pôde ser observado, na tradução interlinear (transliterado) não há possibilidade para outra tradução, não há a expressão “por isso” usada pela Bíblia Hebraica em Português. Nem o artigo definido “o conselheiro”, como se houvesse uma outra pessoa no texto. Fica claro que todo os adjetivos usados no texto se aplicam à “criança” (O Messias) que nasceria e teria o poder sobre seus ombros. Há nitidamente inferências artificiais no texto tendo em vista conduzir o leitor a uma interpretação intencionada.

Veja ainda que o tradutor deslocou os adjetivos messiânicos para o Eterno, obviamente para ofuscar a argumentação de séculos, de que este texto refere-se a Yeshua.
Enfim, o que o texto do profeta deseja, é demonstrar o caráter representativo do Messias, cuja função é revelar: o “D-us Forte”, “O Pai da Eternidade”, etc.
Óbvio, que a abordagem tradicional cristã sobre a divindade do Messias, tem pontos de debate e em alguns casos até mesmo conflitantes com um modelo de fé legitimamente monoteísta. Por isto, está disponível no site do Ministério Ensinando de Sião (www.ensinandodesiao.org.br) um artigo que demonstra uma forma alternativa de abordar o caráter “divino” do Messias. Desprovido de um deslocamento da pessoa do Eterno para Yeshua, como vem fazendo tradicionalmente a abordagem cristã a respeito da relação Pai X Filho. Porém, este é outro debate.

TEXTO 2: ISAÍAS 7:14:
“Eis pois que o Eterno, Ele mesmo, vos dará um sinal: eis que a moça grávida dará à luz um filho e o chamará Imanuel (‘Deus está conosco’)”.

Hú [ele] lachêm [para vós] ôt [um sinal] hinê [eis] haalmá [a moça] hará [grávida] veylédét [dará à luz] bên [um filho] v’karát [e chamará] sh’mô [seu nome] imanu-êl [D’us conosco].

Quando um cristão lê este texto, percebe logo a diferença em relação as versões cristãs, que traduzem geralmente o verso como: “... eis que a virgem dará à luz um filho...”, ao invés de “... eis que a moça...”. O problema reside na polêmica sobre a palavra hebraica “almá” hml[ (traduzida pelas versões não-judaicas como: virgem). O argumento judaico é que esta expressão não significa “virgem”, mas “mulher jovem” ou “moça”. De fato, as Escrituras Hebraicas possui uma palavra específica para fazer referência a virgem, o termo “betulá" hlwtb. Porém, é óbvio que o termo “almá”, que apesar de significar “moça” ou “menina jovem”, não descarta a hipótese de virgindade. No livro de Mateus quando da narrativa do nascimento de Yeshua, vê-se claramente o uso do termo grego “partenós” παρθενος (virgem) para se referir a “Miriam” (Maria). Isto não foi acidental, pois a versão grega das Escrituras Hebraicas (que era muito popular entre os judeus de Israel no I século) chamada de Septuaginta (ou LXX), adota a mesma expressão “partenós” παρθενος (virgem) para traduzir “almá” do hebraico de Isaías 7:14. Provando assim, que os judeus responsáveis por traduzirem as Escrituras do hebraico para o grego viam claramente o vínculo natural entre almá e “virgindade”, apesar de haver uma palavra hebraica específica para “virgem”.

Óbvio, que já houve uma tentativa do movimento chamado “Jews for Judaism” (judeus pelo judaísmo) de contra-argumentar este posicionamento. No manual antimissionário de autoria do sr. Bentzion Kravitz, encontra-se a seguinte afirmação em relação a Septuaginta: “... Os 70 rabinos não traduziram o livro de Isaías, mas apenas o “Pentateuco”, os cinco livros de Moisés...” (A Resposta Judaica aos Missionários – Manual Antimissionário – Rabino Bentzion Kravitz – Judeus pelo Judaísmo – em nota pg.22). Bem, discorda-se deste posicionamento usando-se a famosa Encyclopaedia Judaica que traz a seguinte informação:

“É amplamente aceito que a Carta de Arestéias faz menção sobre uma tradução oficial do Pentateuco, feita em Alexandria no começo do III século A.E.C. -- [antes da era comum ou antes de Cristo] -- seja válida. Porém, sabe-se que o projeto teve início pela comunidade judaica de fala grega, que precisava de uma versão do Pentateuco para serviços e instrução. Esta versão, que era indubitavelmente um trabalho coletivo, talvez baseado em escritos anteriores ou tentativas orais, foi recebida com entusiasmo pela comunidade. Ela foi seguida pela tradução dos outros livros da Bíblia Hebraica. De acordo com Thackeray, a carência litúrgia dos judeus de Alexandria os levou a uma gradual tradução dos profetas tardios, seguido pelo dos profetas posteriores, durante o segundo século, enquanto os livros hagiógrafos [chamado pelos cristãos de apócrifos] eram traduzidos separadamente no primeiro século A.E.C. ou mais tarde. Porém, é geralmente defendido que as versões dos profetas posteriores e tardios devem ser colocados antes do fim do terceiro século A.E.C., e que no mínimo alguns dos Hagiógrafos já estavam traduzidos no começo do segundo século A.E.C., até porque o prólogo para o grego Bem-Sira (132 A.E.C.) refere-se a uma versão já existente da ‘Lei, os Profetas e os outros escritos’. Por isto é aceito que uma versão completa da Bíblia Hebraica existia ao menos no começo do primeiro século E.C. [na era comum, ou depois de Cristo]”. (Traduzido pelo autor da Encyclopaedia Judaica – em CD-Rom V.1.0 – Keter Publishing House, verbete: “Bible: Translations”).

Como se observa, já havia uma versão completa das Escrituras hebraicas em língua grega no I século, contendo “A Torá, os profetas e os Ketuvim”. Sendo assim, o argumento do Manual Antimissionário de que a versão dos 70 (Septuaginta) só traduzira o Pentateuco é insustentável.

Sintetizando: para os tradutores judeus que elaboraram a versão grega das Escrituras hebraicas, era natural o uso do termo grego partenós (virgem) para se referir a almá no hebraico (moça). Obviamente porque não havia dissociação entre “moça” e “virgem”.
A tradução em debate, quando adota esta tradução visa ofuscar a promessa do nascimento virginal do Messias. Deve-se ter em mente que o texto de Isaías se refere a um sinal, no hebraico “ôt” twa, expressão sempre usada nas Escrituras associada à “sinal sobrenatural” [salvo raras exceções] (Ex 7:13 – sinais e maravilhas), não há nada “sobrenatural” em uma pessoa normal dar à luz, porém uma virgem dar a luz em estado de virgindade, é um “sinal sobrenatural”.

Israel teve em sua trajetória vários casos em que mulheres que não podiam dar a luz de forma natural e conceberam por intervenção divina, obviamente não eram virgens, mas eram estéreis, e D’us por sua intervenção as fez conceber (como Sara em idade avançada). Há algum limite para o poder do Eterno? Não seriam estes casos que vão desde Sara, passando por Ana até Isabel (parente de Maria), sinais de uma concepção ainda mais milagrosa que ocorreria quando o Messias viesse ao mundo?

Targumim, plural de “targum” (tradução). Traduções interpretativas judaicas do hebraico para o aramaico.

TEXTO 3: ISAÍAS 52:13—53:12.
Este é o texto mais adulterado da versão portuguesa da Bíblia Hebraica. Far-se-á uma análise de alguns trechos considerados de maior gravidade.
Este trecho é comumente conhecido, como se referindo ao “servo sofredor”, associado durante muitos anos no judaísmo a figura do Messias, como bem demonstra alguns targumim5 e trechos do Talmud. Houve uma mudança de ponto de vista hermenêutico (interpretativo), na estrutura do judaísmo da idade média, tendo em vista prevenir a associação da figura de Yeshua (Jesus) com este texto. Houve um consenso rabínico de se procurar uma interpretação alternativa a Isaías 53, ao invés de associá-lo ao Messias.
Isaías 52:13 que começa na Bíblia Hebraica em português como: “Eis que há de prosperar Meu servo (o povo de Israel)...” Deixa óbvia a interpolação entre parênteses e proposta de associação entre o “servo” com o “povo de Israel”, descaracterizando o caráter messiânico da profecia. Estranho, para uma versão que se propõe manter seus vínculos com a tradição, ignorar como o Targum Jonatas (Yonatân) traduz o começo do texto: “Eis que o meu servo o Messias (o Ungido), há de prosperar...” .
Em Isaías 53:4 a Bíblia Hebraica em português propõe a seguinte tradução: “Na verdade, eram os nossos sofrimentos (das nações) que (Israel) suportava, e as dores que o oprimiam, mas nós o considerávamos um ser aflito, golpeado e ferido por D’us”.

Veja a diferença, na tradução interlinear (literal) no quadro abaixo:
Achên [certamente] chalayênu [nossas enfermidades] hú [ele] nassá [levou] umachovêinu [e nossas dores] sevelêm [carregou] vaanáchnu [e nós] chasháv’nehú [o julgamos] nagúa [golpeado] muké [ferido] elohim [de D’us] umuné [e oprimido].
Não há, obviamente nem “Israel” e nem as “nações” no texto original. Mas, observe, que o tradutor colocou “... as dores que o oprimiam...”. Associando assim a “dor” à 3ª pessoa (ele), como se o texto estivesse associando “as dores” ao sujeito descrito no texto, que para a versão é “Israel”. Mas, no original não é bem assim. O que se vê é o uso da expressão “umachôvêinu” wnybakmw que está na 1ª pessoa do plural (nós) como indica o sufixo 􀃆”einu”. O texto está dizendo que “ele” (o servo sofredor – o Messias) levará as “nossas dores”, ou seja as dores do povo de Israel e não o contrário, como se Israel carregasse em si suas próprias dores.

Uma curiosidade sobre este trecho é que na tradição judaica, anterior à idade-média, este era interpretado como se referindo ao Messias, como descreve o Talmud:
"Disse Rav: O mundo foi criado só para David. Disse Shemuel: Para Moisés. Disse o Rabi Yochana: Para o Messias. Como se chama o Messsias? (...) Se chama "o leproso da casa dos estudos"- disseram os rabinos - porque disse o escrito: CERTAMENTE ELE LEVOU AS NOSSAS ENFERMIDADES, E SOFREU NOSSAS DORES; E NÓS O REPUTAMOS POR FERIDO DE D'US E OPRIMIDO" (ISAÍAS 53)" (Talmud Babilônico, Tratado San'hedrim 98a).

Outro trecho sujeito a críticas é o que se encontra no verso 8: “Com opressão e juízo iníquo foi aprisionado; acaso alguém (das nações) argumentou para com sua geração: ‘Ele (Israel) foi exilado da terra dos vivos pela transgressão do meu povo, e por isso recebeu esse duro golpe?’” (grifo meu). Ao analisar o trecho destacado em negrito, o que se vê é uma frase contraditória. Afinal, todo o tempo o autor impõe um diálogo entre “Israel” e as “nações”, excluindo uma terceira pessoa, a figura do Messias.

Observe a tradução interlinear-literal:
Ki (porque) nigzár (ele foi cortado) meérets (da terra) chaim (dos vivos) mipêsha (da rebelião) ami (do meu povo) nega (um golpe) lamô (recebeu)”
O que se vê é que a expressão “ami” (meu povo) se refere a ISRAEL, a única nação no mundo que é chamada nas Escrituras Hebraicas de “meu povo”. Então como pode o mesmo Israel levar um golpe pelo “meu povo” (Israel). Há um outro sujeito que recebeu um golpe pela rebelião ou transgressão do povo de Israel. Isto é demonstrado pelo verbo “nigzár” (que está na 3ª pessoa do singular masculino – “cortado”) e o verbo “lamô” (que também está na 3ª pessoa do singular masculino – “recebeu”). Lembrando, que não há a expressão “exílio” (galút) no texto original. Fica claro que neste caso há referência ao Messias (a 3ª pessoa do singular) como redentor das culpas de Israel.

Isaías 53:10 􀃆 Este é outro trecho profundamente alterado, veja como se segue a tradução feita pela Bíblia Hebraica em Português:
“Contudo, aprouve ao Eterno oprimi-lo para testar se sua alma se oferecia como restituição, para que pudesse ver prolongados os dias de sua semente, e sentir prosperar, por seu intermédio, os desígnios do Eterno”.

Agora observe a tradução interlinear-literal:
VeYHVH (e Adonai) chafêtz (agradou) dakô (quebrantá-lo) hechelí (enfermá-lo) im-tassim (quando o colocar) ashâm (como oferta pelo pecado) naf’shô (a alma dele) yreê (verá) zéra (sua semente) yarích (prolongará) yamim (os dias) vechfêts (e deleite) YHVH (ADONAI) beyadô (pela mão dele) ytslách (prosperará).
ytiylix' (chalití) verbo da raiz Chalá hlj adoecer.
O que se deve discordar é a tradução do termo “asham” (oferta pelo pecado) por “restituição”. Sabe-se o sentido literal de “asham” como significando “compensação”, porém “asham” é uma referência direta a “oferta pela culpa” oferecida no Templo, conforme se vê o uso da palavra em textos como: Levítico 7:15; 14:21 e 19:21. Ao ofuscar a função de “asham” do Messias, exclui-se qualquer possibilidade, de encontrar a cura de Israel, a resposta para um Yom Kipur verdadeiro. Pois não há “Yom Kipur sem sangue” como afirma a tradição. Sem dúvida, por isto o Eterno providenciou um “asham”, uma oferta pela culpa de todo judeu. O Eterno providenciou esta cura e os que a experimentam (judeu ou não-judeu) conhecem bem os seus efeitos.

O que se vê também, é que há uma suavização dos verbos usados. Ao invés do verbo “testar” dever-se-ia usar como no original o verbo “hechêlí” que vem da raiz “chalá” que só pode ser traduzido como: “adoecer, se tornar enfermo, etc”. O verbo “testar” é inexistente no original, não há nenhuma palavra que suporte esta tradução. Vale aqui uma crítica: Por que a versão em questão traduziu o termo que vem da raiz “chalá” como “teste” em Isaías 53:10 e traduziu como “doente” em Isaías 33:24? Este texto foi traduzido como se segue: “E não dirá um habitante (de Jerusalém): ‘Estou doente’6, pois ao povo que ali vive serão perdoados todos os pecados” (grifo meu).
TEXTO 4: ZACARIAS 9:9
“Rejubila-te com todo teu ser, ó filha de Tsión! Clama com alegria, ó filha de Jerusalém! Eis que para ti se encaminha teu justo rei, triunfante por suas vitórias, mas ao mesmo tempo comportando-se com humildade, cavalgando um filhote de jumento”.

Observe a tradução linear:
Gili (alegra-te) meôd (muito) bat (filha) tsiôn (de Sião) harii (grita) bat (filha) yrushalam (de Jerusalém) hinê (eis) malkêch (teu rei) yavô (virá) lách (a ti) tsadik (justo) venosha hu (e salvação ele é) ani (pobre) verochêv (e montado) al chamôr (sobre o jumento) veal-ayir (e sobre o filho do jumento) bem atonôt.
O texto procura obscurecer a “pobreza” e o “sofrimento” do Messias em sua primeira vinda Yeshua era pobre, as narrativas dos evangelhos deixam isto claro, e sofreu em sua trajetória messiânica. Porém, neste caso há um obscurecimento deste detalhe. Pois se insere a seguinte frase: “... triunfante por suas vitórias, mas ao mesmo tempo comportando-se com humildade...” Não há no original esta estrutura, ele não se “comporta” com humildade, ele é “pobre e sofredor” yn[ (ani).
Veja o uso da mesma palavra em alguns textos da Torá:
Êxodo 3:7 􀃆 Falando do sofrimento e da aflição do povo de Israel no Egito
Deuteronômio 16:3 􀃆 Falando do pão da aflição
Deuteronômio 24:12 􀃆 Falando do homem pobre. O que a profecia de Zacarias procura demonstrar é a dupla função do Messias: “sofredor” e “vitorioso”. Interessante observar novamente o que está preservado na tradição judaica, sobre esta relação do Messias “sofredor x vitorioso”, como está escrito:

“Rabino Alexandre disse: Rabi Josué Bem Levi levantou uma contradição. Está escrito, neste tempo [virá o Messias], como também está escrito, Eu [ADONAI] apressarei isto! Se eles forem dignos, eu apressarei isto, se não, [ele virá] no tempo oportuno. Rab. Alexandre disse: Rab. Josué opôs-se com dois versos: Está escrito, que um como o Filho do Homem virá com as nuvens dos céus, mas também está escrito que o [Rei virá a ti] humilhado e cavalgando sobre um jumento! Se eles merecerem, ele virá com as nuvens dos céus, mas se não, humilhado e sobre um jumento” (San’hedrim 98a).7

Como descrito, os rabinos debatiam o duplo caráter do Messias: pobre, humilhado e afligido e ao mesmo tempo um Messias vitorioso. Este conflito messianológico era muito presente no I século em vários debates rabínicos. Pois de fato havia textos que sustentavam o aspecto “sofredor” do Messias. Por isto há a tradição de um “Messias Ben Yosef” que antecederia o Messias vitorioso. A diferença que existe na abordagem dos judeus messiânicos, é que simplesmente vemos Yeshua como este Messias sofredor e que ele mesmo (como prometera) voltará para um povo que merecidamente o verá sobre as nuvens dos céus, em sua segunda vinda.

TEXTO 5: ZACARIAS 12:10
“E derramarei sobre a Casa de Davi e sobre os moradores de Jerusalém o espírito de graça e das súplicas, e olharão para Mim por causa daqueles que foram transpassados e gemerão como se fosse pela morte de seu filho único, e sofrerão como quem sofre por seu primogênito”.
O problema reside no trecho: “... e olharão para Mim por causa daqueles que foram transpassados...”

Mais uma vez, observe a tradução literal do trecho:

Vehibitú (e eles olharão) elay (para mim) êt (indicação de objeto direto) asher (que) dakarú (eles transpassaram) vesf’rú (e prantearão) aláiv (sobre ele) k’mispêd (lamento).
O uso de “êt” ta pelo tradutor foi totalmente ignorado. O “êt” tem a função de indicar objeto direto em uma oração, ou seja, que a estrutura após o “êt” recebe a ação do sujeito da estrutura anterior. “Eles” (os que olharão) são os sujeitos da oração. “Eles olharão” para aquele (“...para mim...”) que “eles transpassaram” e chorarão. Não há como sustentar “aqueles que foram transpassados”, até porque o verbo transpassar “dakarú” (wrqd) está na voz “Qal” ou seja, voz ativa e não voz passiva. Indicado “ação sobre” e não que os sujeitos da oração estão recebendo a ação. Mas, uma vez a tentativa de ofuscar, o lamento sobre o Messias ferido pelas iniqüidades de Israel e das nações.

Conclusão:
Como pôde ser observado, existe uma intensa produção textual inerente ao judaísmo que tenta de alguma forma impedir a associação entre os textos messiânicos em sua forma original com a figura messiânica de Yeshua o Nazareno. Por uma questão óbvia, sabe-se que por séculos o judaísmo vem resistindo esta combinação, na maioria dos casos de forma intencional. A figura de Yeshua vem sendo excluída do judaísmo durante séculos. Hoje, já existe um movimento acadêmico/teológico que tenta reconstituir Yeshua como um judeu, como um grande mestre, até mesmo como um possível profeta judeu, há até os que afirmam como se segue, Yeshua como um tipo de Messias Ben Yosef:

"A literatura teológica judaica clássica fala de um messias fracassado. Na maioria dos textos, ele é chamado Messias filho de José (ou Messias filho de Efraim). Trata-se de um messias preliminar, que vem em antecipação do, e para abrir o caminho ao Messias final, o Messias filho de David. É um messias que morre a fim de criar as condições e proporcionar a oportunidade, para que a redenção final ocorra. Essa idéia de um messias sofredor é originária do messianismo judaico (...) De acordo com outros historiadores judeus, a idéia do Messias filho de José foi desenvolvida para conferir a Jesus um lugar na teologia messiânica judaica. Segundo essa concepção, a idéia foi desenvolvida para tentar convencer os judeus do primeiro século que acreditavam que Jesus era o Messias de que na verdade ele era um messias judeu, mas não o Messias definitivo. Essa tentativa, esperava-se, evitaria a separação desses judeus da comunidade judaica" (Jesus segundo o Judaísmo, Ed. Paulus - Capítulo "Quem você diz que sou?" - Rabino Byron L. Shewin*)

*Currículo: Professor de filosofia e misticismo judaicos no Spertus Institute of Jewish Studies in Chicago. Ordenado no Jewish Theological Seminary.
O que se propõe com este artigo é que irmãos judeus tenham suas mentes abertas e seu espírito livre pela verdade. Que questionem, que investigam com mente e coração dispostos pela verdade. A verdade é cara, custa vínculos, revisão de dogmas, mas a recompensa é incomensuravelmente valiosa, ela liberta.

O judaísmo possui em sua religiosidade indícios de uma revelação que está nas entrelinhas dos textos sagrados, na liturgia, nos cantos sinagogais e na sabedoria dos rabinos. Yeshua foi o único judeu que dividiu a história, sua simplicidade enigmática deixou uma marca no tempo. As impressões que ele legou, nunca serão feitas por outro judeu na história.

Uma crítica como esta, não tem outro fim, a não ser permitir que as pessoas pensem, pensem de forma autônoma e livre, para compreenderem finalmente a verdade além dos dogmas.

Nota: Não foi possivél mostrar os caracteris em hebraicos usados no texto.
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